terça-feira, 8 de setembro de 2015


INFELIZMENTE ELA ME RECUSOU


Todo mundo conhece essa anedota vulgar:
Camões naufragando tendo que escolher
entre sua amada e o único exemplar
de Os lusíadas. Na tensão das correntezas
no sufoco que comprime o tempo. Parece
que Camões nem sequer hesitou. E por isso
temos Os Lusíadas. Eu deletaria todos os meus
poemas por você. Sem a premência das águas
nefastas, friamente eu o faria agora. E isso
só levaria alguns segundos, e me renderia
alguns gozos a mais. E pouparia você,

você mesmo aí:  disso. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Tanto jubilo! Tanto!
Se eu cair, que pobreza!
Pobres como eu, no entanto,
Tudo arriscaram num só lance!
Ganharam! Sim! Temendo embora –
Deste lado a Vitória!

Vida é só vida! E Morte, Morte!
Ar é Ar, e Alegria, Alegria!
E se eu cair, enfim,
É doce ao menos conhecer o ruim!
Perder não é mais que Perder,
Não há mais fim que o Fim!

Mas se eu ganhar! Canhões no Mar!
Sinos nas Torres, pelo ar
Ressoem lentamente!
O céu muito diferente
Quando sonhado; terra firme –
Poderia extinguir-me!


Emily Dickinson, trad, Augusto de Campos. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

 “Penso na morte e no céu, pois toda vez que penso na morte penso também nas estrelas.
Sinto-me muito pequeno ao lado do infinito e bem depressa abandono essas reflexões. Meu corpo quente, que vive, tranquiliza-me. Toco minha pele com amor. Ouço meu coração, mas evito colocar a mão sobre meu peito esquerdo pois não há nada que me assuste tanto como esse batimento regular, que não comando e que tão facilmente poderia parar. Movimento minhas articulações, e respiro melhor sentindo que não doem.
Ah! Solidão, que bela e triste coisa! Como é bela quando a escolhemos! Como é triste quando nos é imposta há anos!
Certos homens fortes não estão sós na solidão, mas eu, que sou fraco, estou só quando não tenho amigos”.

Emmanuel Bove, in Meus amigos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Amavelmente nomeado

Menino com cão-Picasso


Ele era maior que uma formiga e tinha um nome. Ele me pertencia: a vida dele ficou dentro da minha durante seis anos. Uma vez perguntei para minha mãe: por que ninguém chora quando uma formiga morre? Ela disse: uma formiga por ser muito pequena, fica longe dos olhos dos que podem chorar. Só os diariamente visíveis são capazes de cultivar afeição. Mas não basta ser grande suficiente para ser visto. Tem que pertencer a alguém. Não um pertencer anônimo: como os animais criados para serem abatidos, que são apenas numerados. Mas um pertencer amavelmente nomeado. Rique era maior que uma formiga e era diariamente nomeado e visto. Até o momento em que passou a ficar sempre de olhinhos fechados. Olhinhos que lacrimejavam remelas. Que só se abriam quando eu insistia em chamá-lo para brincar. Então ele abria os olhinhos por alguns segundos. E parecia pedir desculpa com um terno e lento fechar de pálpebras.


terça-feira, 4 de agosto de 2015









Anjo em pele de lobo


Anjos infiltrados foram pisoteados pelo
infindável cortejo de ovelhas. Outros
se disfarçaram em pele de lobo por medo.
Mas não desisti. Amargo uma solidão
sem anestesia. Sinto que suspeitam
do meu dom secreto. Na hora certa
vou usá-lo. A ira foi uma fraqueza.



quarta-feira, 29 de julho de 2015

Tédio pétreo

Nada mais debalde,
Sísifo, Tiziano
isso mesmo, debalde,
que dois indivíduos
interessados um no
outro, mas que
extremamente
entediados precisam
hiperbolizar
nas palavras, mas estando
distantes nem hipérbole
quebra o império
de pedra
que pesa nos rins
se próximos
transariam até não restar
pedra sobre
pedra, mas exaustos o tédio
se aliaria à hostilidade dos
corpos esvaziados, onde
cada palavra é uma pedra
lascada, e fere.
Dormindo
amanheceriam duros inertes
mas a pedra do tédio ao lado

espera.   

terça-feira, 28 de julho de 2015

Poeminha erótico

Ilustração de Pablo Picasso

                                   À Mel F.

Um pedacinho de ti
que em ti permanece
mas te enternece
ceder por alguns minutos
horas dias a mim
que se doa todo
por um pedacinho de ti
que eu possa escolher.


O VALE DA DESTRUIÇÃO

Eu andei no vale da morte e só encontrei destruição. A morte perdeu a piedade por nós e nos abandonou para apodrecermos em v...