terça-feira, 28 de junho de 2016

Eternidade

eternidade:
ato de lançar
no último segundo
a consciência
para fora do corpo
antes de cair

no abismo de si. 
Aviso

Senhor cliente hipercarente
por favor não confunda
a simpatia das garçonetes
com uma promessa
de amor e sexo
o sorriso é um instrumento
de trabalho
inútil pedir o prato mais caro
e uma cerveja a cada dez segundos
não esqueça: não puseram esses corpos
pensando em você
sentimos muito em informá-lo:
mas o senhor é apenas mais um
afazer: uma mesa suja
um prato para recolher
uma privada entupida
mais um rosto deprimido.



A chave
                                     à Nara                  

os grande amigos deveriam ter

um quarto apertado
nos disputados condomínios
das dimensões paralelas

além de dublês que
ficassem acenando enquanto  
conversam e bebem no quarto

deveriam ter uma chave que
abrisse países ruas bares praias
uma cerveja
um mergulho
e de volta aos papeis.  



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O fundo do Poço

Quando estiver no fundo do poço
verifique se é possível conseguir
com flexível regularidade
refeições e água razoavelmente potável

verifique se existem redes subterrâneas
ligando o seu fundo do poço a outros fundos

pesquise a viabilidade de se conseguir destilados
por um custo ínfimo

vá vivendo

caso se passe meses ou anos
considere a possibilidade
do fundo do poço ser

seu novo lar.  

terça-feira, 8 de setembro de 2015


INFELIZMENTE ELA ME RECUSOU


Todo mundo conhece essa anedota vulgar:
Camões naufragando tendo que escolher
entre sua amada e o único exemplar
de Os lusíadas. Na tensão das correntezas
no sufoco que comprime o tempo. Parece
que Camões nem sequer hesitou. E por isso
temos Os Lusíadas. Eu deletaria todos os meus
poemas por você. Sem a premência das águas
nefastas, friamente eu o faria agora. E isso
só levaria alguns segundos, e me renderia
alguns gozos a mais. E pouparia você,

você mesmo aí:  disso. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Tanto jubilo! Tanto!
Se eu cair, que pobreza!
Pobres como eu, no entanto,
Tudo arriscaram num só lance!
Ganharam! Sim! Temendo embora –
Deste lado a Vitória!

Vida é só vida! E Morte, Morte!
Ar é Ar, e Alegria, Alegria!
E se eu cair, enfim,
É doce ao menos conhecer o ruim!
Perder não é mais que Perder,
Não há mais fim que o Fim!

Mas se eu ganhar! Canhões no Mar!
Sinos nas Torres, pelo ar
Ressoem lentamente!
O céu muito diferente
Quando sonhado; terra firme –
Poderia extinguir-me!


Emily Dickinson, trad, Augusto de Campos. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

 “Penso na morte e no céu, pois toda vez que penso na morte penso também nas estrelas.
Sinto-me muito pequeno ao lado do infinito e bem depressa abandono essas reflexões. Meu corpo quente, que vive, tranquiliza-me. Toco minha pele com amor. Ouço meu coração, mas evito colocar a mão sobre meu peito esquerdo pois não há nada que me assuste tanto como esse batimento regular, que não comando e que tão facilmente poderia parar. Movimento minhas articulações, e respiro melhor sentindo que não doem.
Ah! Solidão, que bela e triste coisa! Como é bela quando a escolhemos! Como é triste quando nos é imposta há anos!
Certos homens fortes não estão sós na solidão, mas eu, que sou fraco, estou só quando não tenho amigos”.

Emmanuel Bove, in Meus amigos.

O VALE DA DESTRUIÇÃO

Eu andei no vale da morte e só encontrei destruição. A morte perdeu a piedade por nós e nos abandonou para apodrecermos em v...