quinta-feira, 23 de abril de 2015

Franz, sequestrador de Milena & Max, torturador de Felice

                                                                                                           



Milena acorda.  Sente o cheiro da madrugada.  Anda até a janela. Vê as luzes da rua acesas sob o silêncio da neblina, e ao longe na névoa as montanhas murando a cidade. A imagem da cidade vazia e iluminada artificialmente lhe desperta uma tristeza indefinida, acentuada com o vento frio que arrepia os pelos dourados do seu corpo nu. Fica em dúvida se termina a noite ao lado dele ou no seu quarto ao lado. Antes que decida ele inconscientemente toma a cama inteira. Insone, no seu quarto, se levanta ao ver as primeiras manchas da aurora na vidraça. Prepara o café da manhã. Põe o uniforme do colégio. Franz vem do quarto barbeado e com a bolsa pesada de livros ao ombro querendo passar direto pela mesa de café, mas ela o detém. Serve seu café e lhe beija o rosto perfumado de loção pós-barba. 
Não vou levá-la à escola hoje.
Tudo bem. Vou caminhando.
Tenho reunião pela manhã.
Vou caminhando. A manhã está linda. Um dia especial. Não acha?
Nem me fale. O dia pra mim será um inferno.
Ela se cala. Para de comer. Baixa os olhos, como se tivesse sido profundamente ofendida. Franz morde uma ou duas torradas, toma um gole de vitamina e sai da mesa apressado. Sem se despedir.

                 Três andares abaixo, Felice amiga de Milena acorda no apartamento de um desconhecido. Anda pelo apartamento praticamente sem mobília. Em cima de uma cômoda, vários celulares. Dentro da primeira gaveta, maços de dinheiro, notas baixas e sujas; o que comprova sua teoria de que se trata de um ladrãozinho de pequenos furtos. Na noite anterior esperando o elevador para subir ao apartamento de Milena, ele a assediou. Mas para incomodar do que por esperança de ser correspondido. Tanto que Felice se divertiu com o nervosismo dele quando esta respondeu sua cantada com um sorriso. Ela facilitou propondo laconicamente que fossem para o apartamento dele. Mantendo a parte de cima da roupa, tirou a calça jeans. De calcinha pediu que pusesse a camisinha. Quando ele estava próximo abriu as pernas, mandou que olhasse para o teto, então afastou a calcinha. Ela lhe segurou o queixo para que não tentasse olhar a penetração. Tudo foi ordenado para que somente a parte emborrachada do corpo dele entrasse em contato com o dela. Nenhuma carícia ou beijo foi autorizado. Nem sequer pôde vê-la nua. Apesar disso, se esforçou para levá-la ao gozo, contendo a ejaculação. Provavelmente embasado no estereótipo de que meninas ricas e brancas procuram figuras marginalizadas em busca de maior satisfação sexual. Na verdade, esta demora a irritou. Ela não chegou ao orgasmo e nunca chegaria. Pois teve que se acostumar a extrair o gozo de toques sutis e indiretos. O desconhecido dormiu no chão. Felice pensa no irmão Max. Prevendo a sua revolta e de como deve ter ligado para todas as suas amigas à procura dela. Olha então os celulares com a impressão de que esquecia algo. De fato, o aniversário da Milena!
Alô. Parabéns, amiga.
Brigada. Brigada por lembrar.
Que foi? Sua voz parece triste.
Ele não lembrou.
Sério? Vai ver tava preocupado com alguma coisa.
Sim, ele tinha uma reunião daquelas que detesta.
Então. Além do mais ainda é cedo. Talvez lembre ao longo do dia.
Talvez. Ah o seu irmão ligou ontem te procurando. Parecia preocupado.
Ligou foi?
Sim. Onde você dormiu?
Aqui no seu prédio. Três andares abaixo do seu apartamento.
Como assim?
Conheci um cara no elevador.
Louca.
Você tem um uniforme para me emprestar?
Sim, tenho.
Então estou subindo pra aí. Tomo café com você e vamos juntas pra escola.

No intervalo as amigas de Milena lhe consolam silenciosamente. Temem que o rosto até então melancolicamente sereno rompa-se em desespero. Para agravar, Felice contou para turma inteira sobre o aniversário. Em determinado momento a professora interrompeu a aula para cantar parabéns. Ao fim fizeram uma fila para cumprimentá-la. Milena era irremediavelmente tímida e temia qualquer exposição. Em dias de seminários, ou qualquer apresentação à frente da turma, entrava em choque. Emudecia, ficava trêmula. Mais de uma vez abriu mão de parte da nota para evitar esta situação. Já na intimidade era comunicativa, porém discreta. E entre as amigas era a conselheira confiável, atenciosa e terna. Suscitando uma empatia unânime. O que justifica seu talento para reunir em torno de si personalidades conflitantes, como Emily e Felice, que se odiavam ininterruptamente há cinco anos. Mas se toleravam diplomaticamente devido à presença de Milena. Aliás, não se entendia o motivo da menina mais afável da escola ser amiga da mais irritante. Felice, segundo a opinião geral, dedicava-se fanaticamente à inconveniência. A frequência com que dizia as coisas mais constrangedoras nos momentos mais inesperados estabelecia um prazo de validade mínimo para sua presença em qualquer lugar. O intervalo estava quase no fim. Milena não quer retornar para sala. Reclama de enjoo e indisposição. As amigas se entreolham sem saber o que fazer para animá-la. Felice anuncia sua ideia: irem a uma festa de inauguração de uma nova casa de shows da cidade. Mas Milena resiste, pois pretende não sair à noite para esperar o pai em casa. O enjoo se acentua, corre para o banheiro.  

À tarde Franz liga do trabalho para Milena dizendo para não esperá-lo, pois talvez ficasse na rua pela noite e madrugada afora, ou nem voltaria para casa. Só depois disso Milena se entrega aos cuidados das amigas. Paralisada e inconsolável aceita o rol de incursões comemorativas da noite.  Assim, às 19 horas, Emily, a única maior de idade e que tem carro, passa na casa de Milena. Com Emily já vem Julie, e Felice passou a tarde com Milena. Durante o trajeto as amigas tentam resgatar Milena das trincheiras do silêncio. Emily faz a brincadeira dos tipos: Julie é a silenciosa ardilosa, pois em poucos minutos depois de chegar a uma festa e sem dizer uma palavra, já está enturmada. Felice é a louca fim de festa, arranja sempre confusão, às vezes isso insere um quê de adrenalina na noite, mas nos garante a expulsão das melhores festas. Milena é a mãezona, cuida de todo mundo, sem pegar no pé e sem ser chata, se diverte, mas dentro dos limites. E a Emily, interrompe Felice, é a gordinha beberrona, fica lá no canto com uma cara emburrada, bebendo todas, e quando menos se espera está agarrada com um tipo exótico. Todas dão uma risada. Até Milena concede um leve sorriso. Mas Emily não.
Chegam à rua indicada por Felice. A rua é repleta de restaurantes com cadeiras na calçada. Há também uma boate na esquina. Mas a única construção que poderia ser a Casa de Shows é um balcão estilizado e recém-reformado. Porém, está todo apagado e aparentemente vazio. Tem certeza que é este o endereço? Talvez tenham chegado muito cedo, cogitam. De qualquer forma a porta está aberta. Entram por um corredor escuro e chegam ao que parece ser um salão. As luzes se acendem. Um coro de rostos familiares encabeçado por Franz canta os parabéns. Milena explode em choro. Desencadeado não só pela emoção da surpresa, mas também como desafogo da tensão que a oprimia. Consolada e abraçada pelo pai, Milena olha em volta. Reconhece suas professoras mais queridas. Entre os colegas, vê apenas os mais próximos. Tem um pessoal mais velho, que supõe serem colegas de Franz. Mas dos que trabalham na universidade junto com ele só reconhece Max, o irmão de Felice. O salão está dividido em dois setores. O primeiro tem uma decoração mais teen e um clima de boate. O segundo lembra antigos saraus de belle époque.  No centro um palco separando os dois ambientes. Desnecessário dizer que quase todos com menos de vinte cincos anos estavam embarricados no primeiro espaço. Mas Milena continua no segundo, agarrada ao pai. Julie e Felice atravessam o palco, viemos resgatá-la diz Felice. Da zona depressiva da festa, completa Julie. Olhando os senhores de copo na mão. Reunidos em pequenos grupinhos, conversando sobre política, economia ou trivialidades livrescas, pensa.
Max e sua namorada Dora chegam para cumprimentar Milena e Franz. Olha para Felice. Depois da festa precisamos ter uma conversa séria, diz.  Felice vira as costas para o irmão. Dora sacode a cabeça, transtornada. Max e Dora pedem licença e se afastam.
Por que você implica tanto com ela, pergunta Milena.
Tenho meus motivos.
Emily se junta a elas. Milena aproveita para esclarecer algo: Pai como que você conseguiu reunir este pessoal todo e organizar tudo isso? Eu confesso que tive ajuda, responde indicando as três.
Suas traidoras. Por que não me contaram?
Se contássemos não seria surpresa, responde Felice.
De repente um frisson entre os adolescentes. Uma garota pálida, vestida e maquiada goticamente, o mesmo modo que Julie, sobe ao palco. Ao lado dela três músicos, com figurinos e maquiagem que lhes dão a aparência de zumbis ou cadáveres. 
Não acredito é a Nara Tamásia.
Sim, e K1, Gregório, e K2... Kastelo!!!
A Kastelo, banda de pós-rock-índie-alternativo-tecno da cidade, em progressiva ascensão nacional, era metódica. Em suas apresentações nunca se dirigia à plateia. Nenhuma palavra era dita além e aquém das músicas. Milena, Emily, Felice e principalmente Julie eram fãs histéricas da banda. No momento dançam as coreografias. Felice já havia subido várias vezes ao palco e abraçado cada um deles. Eles se mantiveram impassíveis, mesmo depois dela ter mordido levemente a orelha de um. Franz faz um sinal para Nara, que para de cantar abruptamente. Fica olhando Franz. A plateia inteira se volta para ele, aborrecida por ele ter interrompido. Sem jeito e se sentindo um estraga prazer, explica acanhadamente que tava na hora de cortar o bolo. Vai demorar só um minuto, justifica. Milena apressadamente corta o primeiro pedaço e dedica obviamente a Franz. Antes de Milena decidir para quem daria o segundo pedaço Felice o toma da mão dela, lhe abraça e pede para que tirem uma foto. A luz branca as envolve e plasmam suas imagens no tempo: Felice com sua franjinha loira, o rosto bastante triangular e olhos azuis convictos. Milena com olhos negros profundos, a pele dourada, os cabelos longos, pretos e ondulados. À frente um bolo branco com um dezessete em cima, em forma de vela.

Por volta de duas da madrugada Franz e Milena entram em casa. Exaustos. Milena segura os sapatos nas mãos, tenta aliviar a dor nos pés afagando-os alternadamente contra a maciez do tapete e a dureza do piso frio. Franz não liga o interruptor, pois uma luz plena ofenderia os olhos cansados. Em vez disso liga o televisor que ilumina a sala com uma luz azul amena. Conservando uma penumbra agradável. Franz diz para filha ir tomar um banho quente, para relaxar o corpo. Ele ficaria ali mais um pouco assistindo TV, estava sem sono. Começa a pular os canais, se detém em um filme preto e branco, suspeita que seja um clássico, porém, está exausto demais para apreciar um clássico. E muda para um daqueles programas de entrevista da madrugada. A verdade é que não presta atenção nas imagens, pois se concentra nos sons emitidos pelo movimento da filha: o barulho do chuveiro, a porta do armário batendo, depois um prolongado silêncio. Escuta o som quase inaudível de pés descalços avançando. Ela surge ao seu lado, de toalha e cabelos molhados. Encosta a cabeça contra o seu peito e lhe abraça o tronco. Os cabelos dela lhe encharcam a camisa, o peito. Não está passando nenhum filme? Tira deste programa besta. Sua preferência por filmes inevitavelmente lembra Franz das primeiras semanas de Milena após sua chegada. Do jeito acanhado dela, do esforço para não tirar nada do lugar. Almejando a invisibilidade. Pedia autorização e licença para tudo, até para abrir a geladeira. A única concessão era de madrugada. Quando, depois das onze, levantava silenciosamente e ligava a TV no volume mínimo.  Quase colando o rosto na tela, permanecia imóvel durante toda a madrugada.  Assistindo um filme atrás do outro.
Nas primeiras vezes que a flagrou nestas sessões noturnas, procurou observá-la em silêncio do corredor. Passou acordar com certa regularidade de madrugada para contemplá-la imperturbável na frente do televisor. Percebeu então que este segredo compartilhado tacitamente poderia ser o caminho para uma aproximação. Por isso, certa vez saiu do corredor e perguntou com naturalidade que filme que estava passando. Ela se assustou, pediu desculpa achando que o barulho da TV o havia acordado. Explicou que já algum tempo a acompanhava. Tímida.  Contou que no orfanato a TV era desligada assim que a novela terminava. E todos dormiam muito cedo, mesmo sem sono. A partir de então passaram a assistir juntos todos os filmes da madrugada. 
Milena dorme. Na TV o filme encontra-se no fim. Nos braços a leva para o quarto. Despe-lhe da toalha molhada, enxuga os cabelos de Milena, que em semissono, entrega-se dengosa aos cuidados paternais. Ele a deita na cama cobrindo-a com edredom. Beija-lhe a testa e diz boa noite. Fecha a janela do quarto e fica olhando ela dormir por alguns minutos. É tarde. Encosta a porta com cuidado. Ainda sem sono vai para a biblioteca. Liga o computador. Mantém um arquivo no qual a cada aniversário de Milena escreve um pequeno texto sobre ela. Apesar de ser escrito de ano em ano, o conjunto de textos reunidos no arquivo recebe o título de Diário de um sequestro. Franz sente-se cansado demais para escrever um novo texto. A organização da festa, a tensão para que tudo desse certo; esgotaram sua criatividade e concentração. Assim em vez de escrever, apenas ler salteadamente alguns trechos na tela:

... não me sentia mais à vontade de continuar escrevendo sobre Irmã Cindinha sem antes visitá-la, e ver pessoalmente seu trabalho, junto aos órfãos, no interior da Amazônia. Essa personagem polêmica tinha a habilidade de ser mal vista tanto pelo ativismo ambiental e movimentos agrários “revolucionários”, quanto pelos grandes latifundiários e Cia ao mesmo tempo...
... quando eu liguei dizendo que na manhã seguinte chegaria à Marabá, ela fez questão, nas palavras dela: “que o grande sociólogo Franz Löwy” ficasse hospedada em sua chácara. Aceitei o convite. Isso me aproximaria dos órfãos, facilitando as entrevistas que teria que fazer; fonte do meu corpus de análise e pesquisa. Ao chegar, senti imediatamente meu corpo se desmanchar em um suor morno, transpirava tanto que temia perder a solidez. Gosmento e inteiramente molhado, fiquei constrangido de cumprimentar mais calorosamente Irmã Cidinha, e principalmente sua acompanhante: Milena.
...hoje Milena fez quinze anos, Irmã Cidinha como é típico de sua excentricidade nos ligou às cinco da manhã. Conversava comigo loquazmente, enumerando as novidades, fazendo longas narrativas sobre os últimos conflitos. Mas sua preocupação era com os órfãos. “Milena assumiu o papel de mãe deles, precisava ver o zelo como tratava cada um, apesar de ser tão nova, havia nela um atrofiado instinto materno”. Por isso seu olhar não era o de uma órfã de 13 anos desamparada.  Mas um olhar melancólico e firme. “Franz, você deixou os órfãos ainda mais órfãos”. Disse rindo, mas a risada não atenuou minha culpa. E à noite penso que os órfãos antes de dormir fazem, após a reza em voz alta e pública, uma reza secreta na qual pedem para que Deus castigue primeiro os assassinos de seus pais, em segundo, o sequestrador de Milena, responsável pela segunda orfandade de suas vidas.       

Os olhos arderam. Era o sono que chegava irrefutavelmente. Desligou o computador. E foi dormir.

Felice abre a porta com cuidado, pisa leve o chão. É inútil.  No escuro o irmão à espera. E antes de atravessar a sala a voz dura e admoestatória a intercepta. A luz é acesa. Felice implora para que a conversa seja adiada, cansada, quer subir ao quarto.
Só quando me explicar onde dormiu na noite de ontem.
Como se você se importasse.
Eu sempre cuidei de você. Praticamente te criei.
Até aparecer essa vadia substituta.
Felice acentua a provocação: Enquanto a vadia continuar dormindo nesta casa, dormiria cada dia na casa de um cara diferente. Felice conhece o ponto fraco de Max: a hipotética pureza dela. E continua: o primeiro que aparecer, seja quem for. Você precisava ver o tipo que me comeu ontem.  Um negrinho feio, ladrãozinho da pior espécie. Mas não se preocupe, prometo elevar o nível da próxima vez. Pensei em seus amigos doutores. Andei reparando no Franz, um coroa charmoso. Acho que vou dormir mais vezes na casa da Milena. Max, enojado, vermelho de fúria, avança contra ela, segura seus cabelos, com a outra mão abre o cinto, e a joga no chão. E começa a golpear o corpo de Felice. Mas ela não reage, o couro do cinto estrala contra a pele branca levantando vergões.  Permanece muda, sem gemidos. Max só iria parar de bater quando ela cedesse. Concentra os golpes nas coxas e nas nádegas. A batida cadenciada sobre as nádegas causava um suave tremor, ondas tensas entre as pernas.  Felice soltava gemidos baixinhos. O rosto não era de dor, olhos fechados e mordendo os lábios, degustava o impacto do couro contra sua pele. A calcinha úmida.   O orgasmo se aproxima quando Dora entra na sala. Felice se recolhe a um canto, envergonhada, puxando o vestido para cima das coxas. Dora levanta uma questão incômoda: Não vê que ela está gostando. Não percebe que essa putinha é uma masoquista incestuosa? Max rejeita agressivamente a hipótese, pois considerá-la o levaria a admitir sua parcela de culpa: Felice era uma menina medrosa, solitária e insegura, o irmão deixava que dormisse com ele, isso a acalmava e acabou virando hábito. Dora tomou o cinto de Max, e a fim de provar sua tese bateu fortemente o rosto de Felice, que gritou. Levanta do chão e com lágrimas sai para a rua. Era madrugada. Max foi atrás dela, mas não viu vestígio de Felice na rua vazia. 

 
Meninas e gatos, Balthus.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Ana Vicky



Naquela época Ana Vicky vivia entre o tédio e a ansiedade. Iria completar dezessete na próxima semana e a desgastante expectativa de completar os dezoito começava a lhe afetar.  Praticamente nada se modificaria ao completar dezessete. E mesmo quando completasse dezoito previa que a independência não ocorreria da noite para o dia. Neste caso da noite do dia 27 de março para o dia 28. Mas deveria fazer algo que demarcasse ao menos para seu inconsciente que ela deveria, mesmo que lentamente, se desprender do domínio claustrofóbico do pai.  Geralmente a primeira ideia é perder a virgindade, quando esta ainda existe. No caso, grande parte das amigas de Vicky já se encontrava desvirginada. Entenda-se por grande parte: Lara e Fabiana. Porém, Vicky era uma romântica. Gostava de um visual de roqueira: sombras e lápis delineando bem os olhos, um ar misterioso. Roupas pretas e uma franja sobre os olhos. Mas era meiga. E o visual de roqueira servia como moldura que intensificava ainda mais essa meiguice. Seu quarto ainda era rosa. Ela ainda dormia com seus bichinhos de pelúcia. Falava de sexo com desenvoltura, mas temia ser machucada, justamente na ocasião que se encontrasse entregue e desguarnecida. Por isso, preferia esperar. Enquanto isso ouvia as narrativas das amigas sobre aquele dia que todos dizem ser inesquecível, para o mal ou para bem, inesquecível. Fá conta sobre sua primeira vez enfatizando a dor insuportável, com sangramento lhe descendo pelas coxas, várias toalhas molhadas de sangue. Durante alguns dias teve que usar absorvente, pois não parava de sangrar. Vicky não compreendia de onde poderia vir tanto sangue. O que exatamente se rompia. Teoricamente ela sabia, mas mesmo assim, o simples romper de um hímen para ela não seria suficiente para tanto sangramento. E quando perguntava como era não queria saber se doía ou se sangrava, a dor e o sangue pareciam coisas menores diante de tudo que estava envolvido, ela queria mesmo é que lhe dissesse algo sobre as sensações, um juízo sobre se apesar de tudo, do sangue e da dor, era bom, prazeroso. Fá disse que não gostou da primeira vez. Não, o carinha se atrapalhou, foi estúpido. E não era quem ela sonhou que fosse. Foi tudo um pouco impensado: um fim de semana na praia. Ela percebeu que em certa hora da noite os casais iam para as barracas e ela e o carinha, que era apenas um ficante sem importância, sobraram na beira do rio. Então pelo tédio aconteceu. Uma única vez, interrompida pelos gritos dela.  Não teve como fazer a segunda, não naquele fim de semana, que teve de ser abreviado.  Fá tinha apenas dezesseis, falava muito rápido e não parecia ter ressentimento, o tom era hiperbólico, principalmente quando falava da dor. Vicky chegou a pensar que estivesse inventando. Lá contou a sua primeira vez em outro tom. Para começar dizia que não doía tanto, e que sangrou apenas o suficiente para criar uma pequena mancha no lençol. Naquela mesma noite fizeram outras vezes, e já obteve bastante prazer. A sensação? Tudo parece que perde a resistência, as pernas ficam desmaterializadas, e isso causa uma leve vertigem. É bom. Lá não disse exatamente isso. Disse apenas: as pernas ficam moles, a gente acha que vai desmaiar. É bom. Vicky não estava preocupada. Não com a primeira vez. Estava apaixonada, e parece que este tema pertence à outra esfera quando se está apaixonada. Ela pensava no dia do seu aniversário, o convidaria certamente, estudavam na mesma turma, o terceiro ano C. Ela já enviara todos os sinais e ele correspondera a todos. Conversavam com recorrência, faltava apenas alguém dizer palavras que encerrassem aquela amizade mal disfarçada. Toda quinta ela fazia um curso de dança do ventre. Ela percebeu algo: que precisava aderir a um comportamento sensual. Pois notou que sua amiga abandonava o visual alternativo e se vestia de uma maneira que destacava os seios e as pernas. No outro dia ela finalmente vestiu o shortinho rosa, com um sapato alto vermelho, que alongou suas pernas, levantando sua bunda. Os shortinhos jeans estavam em voga, não causaria alvoroço entre as amigas.  Mas ele notaria: as pernas. Uma blusa mais decotada. E os lábios com batom mais chamativo. Na frente do espelho. Tirou. Não teve coragem, vestiu a calça jeans e o tênis.  E a franja caiu novamente sobre seus olhos melancólicos. O dia chegou. A irmã viria de outra cidade. Sua relação com a irmã era complexa. A irmã tem um comportamento mais agressivo quando se trata de relacionamentos. Quando adolescente se desvencilhava do pai e namorava bastante, até com certo exagero: trocando facilmente de namorados ou namorando simultaneamente mais de um. A irmã naturalmente capturava todos aqueles que lhe cercavam, incluindo aqueles pelos quais Vicky nutria um amor platônico. Por isso manteve a sensação de ter sido algumas vezes trocada pela irmã. Mas admirava a irmã e herdou alguns trejeitos dela, o gosto pela música e o estilo roqueira-meiga, por exemplo. A irmã queria ser cantora mas casou aos 19. Sem muito amor. Queria mais fugir do domínio do pai. Hoje parece um pouco resignada, o casamento parece que lhe podou uma parte da personalidade ousada. O casamento da irmã aproximou as duas, pois parece que agora a irmã perdeu o posto de rival, e pôde assumir a condição de irmã mais velha e confidente. Na noite de véspera ao aniversário as duas ficaram a madrugada praticamente inteira acordadas conversando. A irmã foi franca. E desmentiu quase tudo que a Fá e Lá disseram. Na verdade, a irmã chegou a desmistificar, talvez até com certa amargura, a ideia que ela tinha sobre sexo. Disse que sem amor, o sexo se torna um mecanismo embrutecido. Que antes do sexo tem que existir um percurso de palavras e gestos, um percurso que crie um corredor entre as almas, para que durante o impacto dos corpos elas possam estar em contato, ou para que elas se refugiassem neste corredor: um lugar intermediário, isento da fúria dos corpos. Na verdade a irmã disse algo com esse sentido, mas com estas palavras: sem carinho e amor, não rola. A irmã parecia que estava infeliz no casamento. No outro dia Vicky acordou cedo. Ela não quis vestido, não era festa de debutante. Vestiu uma saia que dialogava com a moda dos anos 50, os sapatinhos coloridos. E um casaquinho curto por cima da blusa. A irmã estava em um vestido vermelho, provocante como sempre. A festa foi em casa. Tudo muito simples. A irmã lhe fez uma surpresa: cantou-lhe uma música. Vicky chorou. Abraçaram-se e terminaram a música cantando em dueto. Depois foi ficando tarde e os convidados foram diminuindo até ficarem as amigas mais próximas e ele. Na frente de casa, os convidados lá dentro, ele entregou o presente dela, um cordãozinho com uma guitarra como pingente. Ela adorou. Houve aqueles balões de silêncio, reticências... Então disse olhando nos olhos dela, não sem hesitar, que a imagem dela invadiu todos os cantos de sua percepção, e que vivia de rompante em rompante, pois uma revolução entronou clandestinamente um tirano em seu coração e este decretou um estado de exceção onde todos trabalham sem descanso para construir monumentos gigantescos com o rosto dela, este tirano era o Amor. Bem, na verdade disse: estou gostando muito de você... penso em você toda hora... e de repente... a gente podia ficar... namorar... o que acha? Ela pensou mesmo em pedir um tempo para pensar, depois pensou em dizer simplesmente Sim, depois pensou que deveria dizer que também tinha um tirano no seu coração construindo monumentos... mas disse apenas Sim. Aproximaram-se: os rostos dançando para se encaixarem, os lábios amassados, os dentes se bateram. Afastaram-se. O primeiro beijo não foi perfeito. Algo que se tornou menor após os trezentos beijos dos primeiros meses de namoro. Na primeira semana foi aquele desassossego. Trocas de mensagens a cada instante. Os encontros eram na escola, no intervalo. Depois da aula às vezes vagavam pela cidade. Os meses passaram rápido, e logo aquele zelo e aquela vigilância constante de cada movimento deram lugar a descontração e beijos mais fluentes. As mãos também se tornaram mais livres.  No aniversário de namoro, ele que aprendia a tocar guitarra, solou para ela um trecho de Sete Cidades, da Legião Urbana. Quis retribuir. Um dia eles voltaram da escola juntos, ninguém em casa. Disse que tinha uma surpresa. Pediu para ele ficar fora do quarto e só voltar quando ela chamar. Ela chamou. Tocava uma música da Shakira no aparelho de som. E aos poucos ela foi deslizando pelo quarto com sua roupa de dança do ventre. O ventre em volteios, os pingentes tremulantes, mãos serpenteando, respirações densas pesando o ar, e uma onda de sensualidade fazendo do quarto um deserto escaldante. Passa o véu no pescoço dele, não se contém e avança sobre o ventre nu. Beijos cobrindo toda a pele descoberta. Ao retirar a parte de cima os seios disparam dois feixes de luz branca contra ele. Ela sabe que se permitir mais não poderá detê-lo. Vicky espera até o último momento para refreá-lo com um não seguro e firme, como se parasse um javali enfurecido com o dedo mindinho. Ela corre para o banheiro e volta com o uniforme, ele ainda está esbaforido na cama. Ana Victória volta para casa um tanto aliviada. Ao entrar no seu quarto sente as mãos secretas de sua mãe lhe abraçando por todos os lados. Abraça seus bichinhos de pelúcia e nada ainda está perdido. O futuro não precisa ser percorrido. Tem apenas sono e fome e nenhum desejo irá lhe ferir no momento. Na verdade disse apenas: Ah meu quartinho, e se jogou na cama.              

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A menina que espera ônibus no centro de BH
  
                                       
Adorava aquele vento frio misturado com luzes artificiais,
e o cheiro de cigarro e álcool, e dependendo do local em que estava, um leve odor de urina e monóxido de carbono, ou simplesmente o cheiro de gente.

Adorava o centro da cidade sob a noite, nas horas de pico, pessoas esperando o transporte coletivo, em travessia.  Agressivas.  Como se voltar para casa o mais rápido
Possível fosse uma fuga faminta, e o centro fosse um estado hostil em guerra: 
nos pontos de ônibus todos pareciam refugiados amedrontados, milhares de bocas e nenhuma palavra trocada.
 Parecia incrível atravessar por tantas pessoas, com certeza milhares, sem descolar uma única vez os lábios.
Entra em casa e tranca o frio lá fora, e guarda o silêncio que trouxe da rua junto com as compras ou a carteira, e pega o silêncio domiciliar, intensificado com pequenos sons programados: uma música, o murmúrio indiferente da tv, o som visual e azul da tela do Notebook, o chiado das folhas de um livro,

o som do atrito dos pés inquietos sob a coberta buscando um calor que ficou em uma fotografia escondida em alguma caixa que nunca mais abrirá.... 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Diz a ela

                                                                                                    
 Vai e diz a ela as minhas penas e que eu peço
Peço apenas
Que ela lembre as nossas horas de poesia

Vinicius de Moraes e Edu Lobo

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Vinicius de Moraes e Chico Buarque

Diz a ela
Que estou completamente
Em destroços, e armas químicas já
Foram jogadas sobre minhas
Crianças

Diz que me viu
Tão inexistente que se não
Fosse a minha singular
Camisa desbotada não teria me visto.

Vai e diz
Que ando bebendo antes do café
E que perdi toda minha fé
Em Deus e na poesia
E que a minha única alegria
Está congelada em uma fotografia

Vai e diz
- Desculpe, mas não sou moleque de recado.



quarta-feira, 17 de julho de 2013

A VIDA PERFEITA DE MÁRIO FAUSTINO



Mário Faustino


Ainda bem que Mario Faustino era amado pelos deuses e cedo foi levado. A morte prematura nos ressente por tudo que interrompe. E causa ainda mais revolta quando ocorrida na vida de alguém tão prolífico quanto Mario Faustino. E se quisermos aumentar o ressentimento acrescente-se: alguém tão talentoso e provido de espantosa ambição intelectual. Mas no caso de Mario não existe ressentimento, pelo contrário, a morte de Mário pode ser contabilizada como mais um de seus inúmeros méritos. Lembremos: não houve morte. Mario foi levado, resgatado em pleno ar, as explosões e o intenso fogo que derreteram cadáveres e ferragens do avião, foram meros disfarces para que sua passagem para o tempo da perenidade fosse completa. Mário Faustino foi apenas recolhido ao tempo inconsumível: “a serpente tritura a própria cauda, /O circulo de fogo se devora, / Arrasta-se o cadáver bem ferido/ Para fora do palco”. Isto mesmo: retirado para fora do palco o cadáver, o corpo: o grande empecilho para que a poesia e o ritmo atemporal, substâncias da vida, atinja a perfeição: “que afinal compreendo: toda vida/ é perfeita. E pungente, e raro, e breve/ é o tempo que me dão para viver-me”. Por isso a morte para Mário Faustino era desejada: não era vista como antagônica da vida, pois a morte completa e atribui sentido para vida, lhe organiza um sentido, e ao fazer isso, a morte traslada a vida para o tempo da linguagem.
E uma vez integrada à linguagem, a vida não pode ser mais ameaçada, de fato se quisermos desenvolver um conceito secularizado de vida eterna só temos praticamente esta alternativa, isto é, a vida só se torna eterna na linguagem: a única forma de salvar a alma é convertendo-se em poesia. Por isso a certeza da morte, ou melhor, a certeza da morte ainda jovem não amedronta e não interfere nos planos de Mario. Tanto que, Aquiles e Jesus são evocados recorrentemente na poesia de Mário Faustino, como exemplos de heróis que souberam de antemão sobre sua morte prematura, mas isso não só foi suficiente para detê-los como era parte essencial para que os destinos de ambos se tornassem signos de eternidade. Com isso, os presságios de morte não fazem os heróis recuarem, e sim lhes intensificam a coragem de renunciar a uma materialidade passageira em nome da perfeição. Isto pode soar demasiadamente platônico. Mas avisamos que todos os signos místicos e religiosos na poesia de Faustino são secularizados: transformados em metalinguagem, neste caso, mitos cristãos e pagãos, e mesmo teorias que soam bastante platônicas podem ser interpretadas como um projeto poético de Mário. Assim, a vida orgânica é algo a ser superado para se conseguir a plenitude (Platão): a partida de Aquiles para morte certa na guerra de Tróia, mesmo depois de ter sido avisado por sua mãe, a fim de conseguir a glória e a eternidade; e ainda: Jesus que aceita ser crucificado para garantir o direito à salvação aos mortais, a vida eterna; enfim, figuras mitológicas que saltaram do tempo presentificado (enquanto medida, histórico) para o tempo do mito (cíclico, o tempo da linguagem, da sintaxe eterna), sendo elas retomadas no projeto de Mario como metáfora da capacidade da poesia de transformar tudo que é passageiro em eternidade.
E esse projeto não só existiu literalmente como ocupou os últimos anos de vida de Mário Faustino. E sobre este Projeto Benedito Nunes, pensador inclassificável e amigo de Mário, dedica dois artigos: “O projeto de Mario Faustino” e “Introdução ao Fim”. Depois da sua estréia em livro, com O homem e sua hora, Mario planejava publicar um segundo chamado A reconstrução, mas logo descartou essa ideia em nome de um projeto-poema, a semelhança de Mallarmé, que lhe ocupasse toda a vida, o livro seria escrito ao longo dela e lhe emprestaria coerência: este longo poema condensaria sua experiência de vida e se estenderia indefinidamente até sua morte, como destaca o próprio Mario em carta a Benedito Nunes “com ele (poema-projeto) poesia e vida minha deverão seguir paralelas, até que a morte nos separe”. Não só paralelas, como comenta Nunes, mas entrelaçadas: “o que o poeta visava alcançar era o entrelaçamento da vida com a poesia, a produção de uma por outra, de tal modo que a poesia se tornasse uma espécie de ação contínua de sua vida[1]”. Poderíamos dizer mais: Mario Faustino planejava pouco a pouco transferir a existência corpórea para existência linguística, se convertendo em seu poema, Mário não desapareceria por ter existido: a mortalidade não lhe reteria no esquecimento, pois este saltaria para a perfeição e completude da vida-linguagem:
Vida toda linguagem,
Vida sempre perfeita,
Imperfeitos somente os vocábulos mortos
Com que um homem jovem, nos terraços do inverno,
                                                  [contra a chuva,
Tenta fazê-la eterna – como lhe faltasse
Outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
                      língua
                                 eterna.  
A língua fornece a sintaxe imortal à vida, pois cria um sentido para a sua gratuidade, o simples transcorrer da vida torna a longevidade um vocábulo morto, somente a intensidade da palavra poética torna apreensível o verdadeiro tempo vivido. A vida é perfeita enquanto tempo fixado na palavra: as lembranças submersas no caos só se tornam legíveis quando recriada pela linguagem. Por isso, a brevidade da vida orgânica não ameaça a eternidade da “vida toda linguagem”, ao contrário, o corpo deve ser retirado de cena para que a poesia permaneça: D. Sebastião e Jesus Cristo mantiveram  penosamente o corpo, e depois se desfizeram dele para penetrar a dimensão imperecível do tempo mitológico. Ambos morreram jovens, enquanto viveram também tiveram em paralelo à vida corpórea a presença ininterrupta do verbo ancestral, oriundo da religiosidade intensa de D. Sebastião, e no caso de Jesus, Ele mesmo o próprio verbo encarnada. Não é ocasional que os fragmentos que fariam parte do projeto-poema que deveriam cobrir toda sua vida retomam a imagem de Cristo e D. Sebastião, estas duas figuras mitológicas conseguiram em pouco tempo de vida orgânica se projetarem eternamente para além do tempo circunstancial da “vida terrena”. Temos, então, um paradoxo que relativiza o quantitativo e o qualitativo. De fato, Mario Faustino planejava escrever um poema longo, e repetiu mais de uma vez que em arte o quantitativo (o tamanho) é essencial, mas isso não está ligado a questões meramente extensivas, ao contrário, seus poemas tendiam cada vez para a condensação ideogramática, os fragmentos que restaram do seu longo poema em progresso mostram que este seria composto de pequenos instantâneos, que deveriam ser montados seguindo a técnica cinematográfica inspirada no cineasta russo Eisenstein. Assim, a extensão ficaria garantida pela potencialidade de projeção que esses fragmentos pudessem suscitar:
(...) a extensão e a duração do poema se confundiriam, não dependendo dos anos que o autor pudesse viver, mas da intensidade com que ele vivesse qualquer prazo, curto ou longo, de existência. O essencial é que a extensão, qualificada pela continuidade de um movimento ininterrupto, se tornasse intensiva, e que o tamanho da composição estivesse subordinado sempre ao grau de elaboração artística que a experiência do poeta alcançaria.[2]   

Deste modo, o poema que deveria cobrir toda a vida do poeta não precisaria ser necessariamente longo formalmente, mas qualitativamente, a extensão corporal do poema teria que ser intensificada pelo seu potencial estético.  Com isso o resultado condensado dos fragmentos é desproporcional em relação à extensão temporal do trabalho de confecção, essa afirmação pode ser aparentemente óbvia: o tempo da leitura e do fazer são logicamente inconciliáveis, mas de certa forma essa constatação óbvia desaparece temporariamente na cabeça do leitor, o que leva muitas vezes a atribuir ao poeta uma escrita extática: o êxtase e a instantaneidade da leitura são estendidos ao fazer poético, disso surge a fantasia, por parte do leitor, da escrita inspirada e automática.  Mas, no caso de Mário o tempo da criação não era meramente desproporcional, mas simplesmente ininterrupto: “tento fazer em poesia aquilo que em mística os santos chamam de oração contínua”. Deste modo, Mário Faustino seguia o princípio rilkeano de que a escrita de um simples verso necessita da experiência de uma vida inteira para ser concretizado, algo retomado por Blanchot nesta passagem:
Para escrever um único verso, é necessário ter esgotado toda a vida. Depois, a outra resposta: para escrever um só verso, é preciso ter esgotado a arte, ter esgotado a vida na busca da arte. Essas duas respostas possuem em comum a ideia de que a arte é experiência, porque é uma pesquisa, não indeterminada mas determinada por sua indeterminação...[3]  

A poesia é experiência, mas esta experiência não decorre do período de vivência sobre a terra, não se trata da experiência enquanto acúmulo de situações vividas e transformadas em referência, mas do nível de consciência sobre nossa indeterminação: ela potencializa o grau de contato com o Ser, ao nos remeter ao limite. Assim a poesia é resultado da experiência porque antes de tudo ela nos põe conscientes da nossa duração: adensa qualitativamente o tempo vivido, nos dano sua real medida, e não apenas a medida do tempo cronologicamente acumulado sobre a terra. Ou como Mário Faustino diz nesta passagem comentada por Nunes:
Deste modo, os poemas que ele nos legou, como penhor do poema maior que pretendia realizar, não são fragmentos de uma vida ao sabor da corrente do tempo, mas apoios de que a sua existência necessitou para transpor essa corrente e para, dominando-a, expandir-se e crescer. “Essa montagem, dizia ele ( Mario Faustino), ao mesmo tempo que dará ordem, harmonia à minha poesia, organizará de certo modo a minha vida, uma refletindo a outra, ou melhor, reflexando a outra. [4]
Assim a poesia e vida se aprimoram conjuntamente. E viver ininterruptamente em poesia significa estar plenamente cônscio de seu limite, ou mesmo consciente de sua falta de estrutura: a poesia resulta da experiência porque ela cria a experiência, cria incessantemente novos obstáculos que prolongam a consciência da própria existência, além de lhe atribuir novas motivações e sentidos. Por isso, Mário Faustino dizia que a vida era perfeita, justamente porque ela é o tempo dado para se viver, ou melhor, ela o tempo dado para nos criar. E talvez ninguém tenha vivido melhor o tempo ofertado do que Mario, ou como bem comenta Walmir Ayala:
Nenhum ser, como o poeta, aproveita tanto da sua destinação mortal. Ele que constrói a perenidade do instante, e que geralmente ama a vida com um furor sagrado, é o mais envolvido neste tentáculo doce e passional, que transfigura cada palavra, que coloca um eco inesperado em cada gemido. Mário Faustino era isso, um deslumbrado pela vida, um bailador com a morte.[5]
Ante isso, não podemos dizer que a morte tenha interrompida a obra de Mario Faustino, nem sequer lamentar a vida que poderia ter sido e não foi; como se costuma fazer com poetas que apontavam para um futuro que não se cumpriu. Pois no caso de Mário Faustino tudo deu certo, inclusive sua morte. Como lembra Augusto de Campos: “o poeta apostou na sua destruição e acertou, conferindo o vaticínio dos seus poemas com a morte brusca em plena mocidade”[6]. Com efeito, as circunstâncias da morte de Mário ressignificou sua poesia e aumentou de maneira inextrincável a correspondência entre sua vida e seu projeto-poema, assim como D. Sebastião, sua morte sem cadáver libertou o verbo-mito até então refreada pela presença empírica, completando definitivamente seu traslado para a linguagem: “com o seu corpo anonimizado e irreconhecível – sua “vida, paixão e morte” – Mário Faustino identificou, tornou reconhecível a especificidade de sua mensagem poética no isomorfismo vida-obra que sempre perseguiu”[7] Não se trata do sensacionalismo da morte que aguça a curiosidade mórbida, que faz da obra uma mera coadjuvante. No caso de Mário Faustino, a morte, como uma espécie de performance mortal, ficcionaliza toda a vida, dilui todo o resquício factual, e com isso, Mário Faustino alcança a vida perfeita que menciona em seu poema “E nos irados olhos das bacantes”:
... mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda

O ciclo se completa quando a parte humana se encerra para se fundir ao fluxo ininterrupto da sintaxe do tempo mitológico. A vida de Mário Faustino foi perfeita porque a poesia intensificou seu tempo vivido de tal maneira que não houve sobra, a fusão entre vida e linguagem foi cirurgicamente exata, ao ponto de seu transplante para linguagem levantar dúvida sobre a existência real, o que nos faz perguntar, assim como os sebastianistas na ausência de um corpo, se ele a qualquer momento não voltará. Mas a diferença entre os leitores e admiradores de  Mário Faustino e os sebastianistas, é que a profecia de sua volta se cumpre diariamente, sempre que abrimos uma de suas obras.

REFERÊNCIAS:
AYALA, Walmir. Um depoimento: Mário Faustino. In: CHAVES, Albeniza de Carvallho. Tradição e modernidade em Mario Faustino. Belém: Gráfica e editora UFPA, 1986.
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de janeiro: Rocco, 2011.
CHAVES, Albeniza de Carvalho. Tradição e modernidade em Mário Faustino. Belém: Gráfica e editora UFPA, 1986.
CAMPOS, Augusto. Mario Faustino, o último “verse maker”-2. IN CHAVES, Albeniza de Carvalho. Tradição e modernidade em Mário Faustino. Belém: Gráfica e editora UFPA, 1986.
FAUSTINO, Mario. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 
NUNES, Benedito. Introdução ao fim. In: CHAVES, Albeniza de Carvallho. Tradição e modernidade em Mario Faustino. Belém: Gráfica e editora UFPA, 1986.

Notas




[1] NUNES, Benedito. Introdução ao fim.  p.322.
[2] NUNES, Benedito. Introdução ao fim, idem.
[3] BLANCHOT, Maurice. A morte possível.  p. 91.
[4] NUNES, Benedito. Idem, p. 323.
[5] AYALA, Walmir. Um depoimento: Mário Faustino. Idem, p. 301.
[6] CAMPOS, Augusto. Mario Faustino, o último “verse maker”-2. Idem, p.131.
[7] Idem,p.332.

domingo, 26 de maio de 2013

VESTIBULAR


Ele e ela saíram do ônibus e pisaram no norte do país. Imediatamente a luz úmida da tarde abafada fulminou seus miolos. Depois de alguns passos as roupas estavam molhadas e um calor gosmento impregnava as dobradiças do corpo. Viajaram três dias por estradas esburacadas. E além de suportarem os inconvenientes naturais: cabelos desgrenhados e duros, hálito mortal, axilas coladas e barriga desregulada, suportaram ainda, sentados lado a lado, um silêncio constrangedor. Eles que eram loquazes amigos há três anos.
A amizade deles terminou na rodoviária. Ele foi levar a amiga até lá, para que se cumprisse o ritual de lágrimas. O amigo não chorou, não parecia sofrer, e a consolava sem convicção. Mas a frieza era apenas para dar relevo à surpresa: foi até o guarda-volumes e apanhou sua mala. A separação lhe renderia mais que uma despedida regada de lágrimas e abraços, lhe destruiria completamente, não saberia como concluir um dia sem vê-la, ou falar com ela. Ela parou de chorar e ficou séria. Um rosto ríspido e silencioso ocupou o lugar da amiga terna e precocemente saudosa. E então ele percebeu que era um idiota, e ela uma vadia. E tudo isso em um segundo. 
Protagonizaram uma rotina de namorados, mas sem beijo e sexo. Eram inseparáveis. Estudavam em uma escola de bastante prestígio. Como a escola mantinha uma longa fila de espera, ainda se permitia a extravagância de reprovar impiedosamente quem não atingisse a média. Que era acima da média quando comparada com outras escolas. Assim, se manter na escola conferia status. O próprio uniforme tinha a resplandescência dos objetos de luxo. Havia toda uma política de chantagem e recompensas, em torno do esforço para manter a média. Alguns pais chegavam a oferecer aos filhos altas quantias por cada nota na média ou acima da média. Mas a maioria era atormentada apenas com ameaças e recompensas normais. De qualquer forma, um típico contexto em que uma menina “burrinha” (ela mesma se denominava assim: “amigo, por que eu sou tão burrinha?” perguntava ternamente quando queria acalmá-lo) depende diretamente de um garoto inteligente. Ela era linda, e recebeu com cinco anos de antecedência um corpo com a exuberância que algumas só conquistam depois de muita insistência aos vinte. Ele era normal em termos estéticos, porém, uma figura lendária no cenário da escola: todas as notas eram acima da média. 
Na verdade, ela não era “burrinha”, mas bloqueada. A mãe morreu quando ela tinha nove anos, o pai, um fazendeiro bem-sucedido e brutamente gaúcho, aproveitou o seu proposital exílio rural para mandar os filhos para o sudeste sob o argumento que lá teriam uma educação da melhor qualidade. Ela nunca se recuperou do vácuo paterno, e como o irmão não preenchia este vácuo, desenvolveu uma atração por homens velhos, calvos e barrigudos.  Aos quinze se envolveu com um médico de trinta, seu primeiro ginecologista, ele tinha precoces entradas alongando a testa, isso a excitou. E o constrangimento de tirar a roupa, mesmo ante a enfermeira indiferente, liberou um raio de desejo que perfurou a frágil ética do médico. Ele, embaraçado, tentou encobrir a luz pulsante da nudez com uma camisola opaca. Mas as faíscas de nudez que escapavam do camisolão feriam ainda mais. A penetração dos dedos enluvados curiosamente não excitou nenhum dos dois. Aliás, penetrá-la em condições plenamente sexuais não era simples. O médico em questão só conseguiu parcialmente. Ficaram uns seis meses trocando discretamente amassos em locais públicos, precisamente no carro. Ela nunca aceitou o convite de subir ao apartamento. E eles não poderiam ir a um motel. A penetração ocorreu em um fim de expediente, no seu consultório. Em determinado momento temeu por consequências drásticas. Um impulso que veio da memória, mas que evitou se apresentar em forma de imagem, lhe fez empurrar o médico e nunca mais querer vê-lo.
Por algum motivo não se sentiu segura. Nunca se sentiu desde que a soltaram. Primeiro sua mãe, que lhe soltou em plena infância ao lado de um pai já com seus cinquenta. Depois o pai a soltou ao lado do irmão que nunca a segurou. Sonhava sempre abraçando o pai durante horas. Suas mãos firmes e envelhecidas lhe apertando, afagando os cabelos lisos e dourados. O irmão aos vinte e cinco se efetivou como executivo de uma empresa em ascensão. Torturava a irmã com aquela linguagem imbecil de motivação e perseverança. Pontificava insistentemente a base da auto-ajuda-executiva em seus ouvidos e fiscalizava obsessivamente as notas dela. Diante de qualquer nota mediana pontificava mais agressivamente, durante vários minutos, as máximas que guiavam sua vida. Depois o pior: ligava para o pai, contava que ela estava fracassando, sendo indisciplinada. Passava o telefone para ela e o pai laconicamente dizia: obedeça seu irmão e não me decepcione. Pronto. Passou a ter asco da juventude do irmão, de sua precocidade, de suas metas: ganhar um milhão aos vinte e sete, ocupar o cargo tal aos vinte e oito. E diante de uma avaliação, bloqueava. Aos dezesseis conheceu o chefe do irmão. Quis abraçá-lo de imediato, sentar em seu colo. Era velho e autoritário. Um dia sentou em seu colo de brincadeira, mas ele passou seriamente a mão em seus seios. Ela sentiu uma sensação de segurança e extremo prazer. Assim durante algum tempo sua vida sexual se resumiu, com exceções pontuais, basicamente a ser acariciada pelo velho. Sempre na mesma posição: ela no colo dele, ele com a mão cada vez mais ousada. 
                                     
Ele não disfarçava seu asco. Ela começou a chorar, mas já chorou demais na frente dele. Foram três anos de choro constante, por isso, suas lágrimas estão desmoralizadas. Tudo indica que sempre teve o pleno controle de suas lágrimas, e as usava calculadamente quando percebia uma hesitação da parte dele. A hesitação era justificada, ele correu riscos reais por ela. Sendo um bolsista da escola não poderia se envolver em algo ilícito. O que fizeram do ponto de vista rigoroso da escola era ilícito. No primeiro bimestre do primeiro ano do ensino-médio ela tirou notas lamentáveis. Completamente insuficientes para mantê-la na escola.
Transpirando, famintos, e ávidos por um banho, andavam a esmo pela cidade empoeirada. Cidade que parecia está sendo construída naquele exato momento. Quem poderia supor que estavam realizando um sonho? Mas planejaram este momento inúmeras vezes. Evidentemente percebeu que ela fingia no momento que apresentou sua mala pronta para viagem. A relação deles era uma amizade tensa, com um sistema de exclusividade que exigia tanto um do outro, que imaginaram uma cidade distante onde viveriam uma amizade desobrigada, ou subiriam um degrau a mais na escala afetiva. Ao menos foram esses os sinais que ela lhe enviou quando o cansaço machucava. Quando explicitava que se submetia ao sacrifício por desejo e amor. Ela ambiguamente adiava a possibilidade para um futuro e para outra geografia. Alegando que vivia a abstinência tanto quanto ele. E assim, o desejo era perigosamente acumulado. Enquanto isso, contatos intermediários eram travados: a exposição constante de sua intimidade feminina, raios de nudez revelados em arquitetadas distrações, mãos que se esqueciam em lugares estratégicos. Provavelmente contava com um blefe dele: por que viria para o interior do norte do país para fugir da concorrência? Já ela necessariamente teria que fazê-lo. E mesmo com a ajuda dele passou raspando para fisioterapia justamente na universidade federal que oferecia a menor concorrência. Mas para uma bloqueada isso era um sonho improvável que se realizava.

Numa última tentativa praticamente se ajoelhou pedindo que compreendesse. Ele a cortou com uma palavra cortante: vadia. Instantaneamente suas lágrimas secaram e o orgulho suspenso durante três anos voltou ao sangue. Segurou firme a mão dele e lhe puxou para o hotelzinho logo à frente. Pediu um quarto com convicção. Subiu as escadas ainda lhe puxando pelo braço. No quarto tirou toda a roupa sem sensualidade, deitou na cama, virou o rosto para o lado e esperou. Ele contemplou por alguns segundos o corpo nu esperando imóvel e não hesitou: segurou violentamente os seios volumosos, enfiou o nariz entre suas coxas, sugando o molhinho especialmente salgado pela falta de água. Afastou as pernas para iniciar a viagem cega. Gozou ostensivamente dentro. Pôs o corpo dela de costas e iniciou, por um caminho mais íngreme, outra viagem, com movimentos freneticamente agressivos. Desta vez gozou sobre sua bunda. Foi ao banheiro, tomou um banho. Pegou a única muda de roupa que trouxe na mala, e se trocou. Ao sair do banheiro a encontrou ainda na mesma posição. Na rua pegou o primeiro táxi para a rodoviária. Não poderia perder tempo, a matrícula seria nos próximos quatro dias. E havia sido o primeiro colocado no curso de maior concorrência da maior universidade do país. 

O VALE DA DESTRUIÇÃO

Eu andei no vale da morte e só encontrei destruição. A morte perdeu a piedade por nós e nos abandonou para apodrecermos em v...